Entrevista 2 - LN2701_Áudio

May 03, 2026 21:48 · 1:09:39 · Portuguese · Whisper Turbo · 2 speakers
Энэ бичлэгийн хугацаа дууссан 24 хоног. Бүх цаг хугацааны хадгалах сан →
Зүгээр л харуулах
0:02
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Perfecto, ready to go. Antes do micro, obrigada por participares neste estudo. Hoje vamos falar das tuas experiências com o serviço, seja psicologia, apoio social, justiça, forças de segurança, saúde mental, comunitária.
0:16
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
etc. Aquilo que eu gostava antes era de começar por uma parte que nos tem sido ressaltada muitas vezes pelas pessoas queer, que é a nível de questionamento, processo de descoberta, autodeterminação e a te fazer algumas perguntas nesse sentido. E por essa lógica, gostava de perceber quando é que tu começaste a questionar a tua identidade de género, orientação sexual, como é que foi este processo?
0:44
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Foi para aí, se não me engano, no meu primeiro ano de escolar. Foi no meu primeiro ano de escolar, porque para mim, matei confusão, porque eu cresci numa casa onde são mulheres. Então, só há uma casa de banho. E eu amo perfeitamente, quando eu queria ir à casa de banho, e eu tive de ter, alguém teve de ter, não me lembro quem, mas alguém teve de conversar comigo, tipo, ah, tem esta casa de banho que tens de ir, e depois tem outra casa de banho para as outras pessoas, e eu ficava do tipo,
1:17
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Why? Qual é a diferença? Isso e depois teremos que explicar, ah, porque há diferenças de genitalia, conforto, desconforto, e para mim isso foi boda estranho. Fora também os padrões de género expectados por uma criança naquela altura, por exemplo, eram saber jogar futebol. Toda a gente, todos os rapazes iam jogar futebol e eu ficava, tipo, olhar para eles. Foi provavelmente um ano, a primeira vez que eu fui jogar futebol. Chamaram-me e eu peguei com a bola com a mão. Ih, que tristeza.
1:48
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Que trinta e um. Então, basicamente, eu ficava com as miúdas a jogar as caçadinhas ou os jogos que tivessem, ou me being autistic, literalmente, eu lembro-me, eu não sei, é uma coisa weird, mas eu só ficava a dar voltas à escola. Foi uma coisa que eu tive desde até que acabei a escola, que era só ficar a dar voltas à escola. Não tinha nada para fazer, então eu só ficava a dar voltas a falar com colegas ou a pensar na vida.
2:13
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E acho que foi isso. A questão sexual foi mesmo assim, foi mais no segundo ou terceiro ano, em que fiquei um bocadinho mais ok. Depois ouvia as palavras espanoeiro, gay, não entendia muito bem. Depois fui um explicando e eu, ah, ok. Porque estas coisas na minha casa não eram tão um problema.
2:41
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Claro que tinhas os tios que brincavam e diziam, ei, para não era isto, para não era aquilo, mas tipo, eu literalmente, com três anos de idade, a minha mãe levou a primeira Pride Parade do Porto, então, como deves imaginar, o meu padrinho é gay. Então, literalmente, inclusive, recentemente, a minha prima, que é malta, é lesbiana, levou a namorada à minha avó, com demência, 80 anos.
3:07
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
e virou-se e disse, ah, é a minha namorada e a minha avó, tipo, com demência, tipo, ah, ok, que linda. Ou seja, houve logo, para ti foi logo um choque a partir do momento do sexto ambiente familiar, na verdade. Foi entrar para a escola e perceber que tudo o que não era um problema, de repente, tinha regras. Havia algum choque entre o que foi ensinado em casa e a conduta escolar. Iá, basicamente.
3:38
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E como é que isto foi vivido ao longo do teu percurso escolar? Houve acontecimentos, pessoas, contextos que facilitaram este contexto? Tipo, ok, eu não me enquadro com... Ah pá, num contexto escolar eu ficava sempre com os miúdos, é de ser estranhos. Eu ficava sempre, tipo, perfeitamente, por exemplo, no quarto ano os amigos que eu tinha eram literalmente um miúdo surdo.
4:07
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Um miúdo que sabia falar a língua gestual portuguesa, porque a avó é surda, então ela sabia fazer a tradução. E pessoal imigrante. That's it. Por exemplo, para mim, até mesmo no infantário, eu amo perfeitamente o que reclamam sempre com a minha mãe em dizer que eu devia cortar o cabelo, porque eu sempre típico que eu o comprei. A questão, por exemplo, do género veio mais tarde e veio precisamente no dia em que eu came out for my family, which, by the way, even though...
4:42
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
a questão de género e sexualidade era ok na família. Quando eu saí, foi uma grande cena. Foi um drama. Minha mãe não estava esperando isso. Ficaram toda a gente em choque. Foi tipo...
5:00
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E agora minha mãe entrou num loop e eu amofeitamente a primeira coisa que a minha mãe disse. Pronto, e dá bem que pelo menos não és trans. Ok. Ok. E isso tinhas quantos anos quando fizeste tipo o came out a nível de sexualidade? Tinha para aí o quê? 13, 14? Ok. Ok. Which by the way, a Adriana actually came out. Eles descobriram que eu estava a mandar mensagens a um rapaz.
5:36
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E como é que foi? Porque já havia esta consciência, como estavas a dizer, que a questão do género binário era nonsense. Era muito irrelevante para ti. Como é que foi ouvir isso da tua mãe? Que emoções é que ficaram presentes? O que é que tu te recordas nessa altura?
5:53
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
A minha mãe, para ela, eu acho que principalmente para ela era muito traumatizante, já que, por exemplo, ela foi a primeira parade para o Porto por causa da morte da Gisberta, porque a Gisberta morreu na rua onde nós vivíamos. E ainda por cima era um espaço onde, por exemplo, o meu tio, que era toxo dependente, ia. A minha irmã, depois da escola, ia para aquele lugar abandonado fumar com os amigos. Então, tipo, saber que uma mulher trans, foi a primeira mulher trans assim, que se saiba, tinha morrido.
6:22
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
principalmente na cidade do Porto, foi um choque e a minha mãe sempre ficou com aquele trauma de que, ok, eu não quero isto para os meus filhos. Foi perfeitamente, depois, muito mais tarde, que eu já estava dado o queimão-te para amigos e assim, e tudo mais, sobre a questão não binária, mas quando fui para a minha mãe, minha mãe ficou muito, tipo, mas é que é, tenho agora de chamar-te minha filha? Como é que eu te tenho de tratar? E eu, tipo, não.
6:52
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Whatever, sou eu, não é mesmo? Não morri, não fui, não veio um alien mudar uma. E para mim foi uma ajuda. Não binário? Aí foi quando já tinha 17, 18, onde eu verdadeiramente assumi, porque pronto, eu não sabia muito bem, a identidade não binária ainda não era uma palavra que eu conhecia, eu só conhecia homem trans e mulher trans.
7:20
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Eu ficava tipo, I'm not a woman, I'm not a man, não sei como é que isto funciona. Depois é que foram amigos meus que, pronto, eram todos queer, tinha boa gente que era trans, e era do tipo, ah, crow, nobody here sees you as a fucking man. E eu tipo, ah? Lembro perfeitamente, uma vez eu estava com um grupo de amigos, e veio uma reprega nova no grupo, que não conhecia, virou-se para mim, és uma lésbica? E eu fiquei a olhar para ela, tipo...
7:51
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Eu na altura, tipo, but I'm a man? Eu tipo, ok, mas are you a lesbian? E o tipo, oh, this bitch thinks I'm trans. Mas a parte que me ajudou mais foi que quando o day came out, eu a seguir fui de Erasmus. Eu fodi a minha escola, fodi a minha psicóloga da escola e os meus erastores, tipo, olha, this is the name I go for, this is all my pronouns, I'm gonna go to a different country, this is how everyone is gonna treat me. E foi assim!
8:23
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Então, tive durante quase três meses, a primeira vez na minha vida, toda a gente não me conhecia por Crowley. O que foi, assim, uma experiência muito interessante, porque quando voltei, né, depois tinha toda a gente que sabia por uma deadname, me tratava por uma deadname, eu fiquei tipo, I don't want this. Mas, já, foi, assim, um grande boom. Mas imagina, tu...
8:49
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Eu acho que isto é muito característico em Portugal, porque há mesmo, na minha percepção, e até podemos falar disso, muita falta de informação, mas tínhamos o Crowbebe, primeiro ciclo, que já tinha tantas dúvidas, e certezas também, porque havia muitas coisas que não faziam sentido, e que só à medida que vai crescendo, e a partir de redes informais, é que se vai familiarizando com os nomes das coisas, e que isto existe, e que está tudo bem.
9:20
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Isto acabou por ser um processo longo, quando durante muito tempo já sabias quem eras? Desde sempre soube quem era, como é que me sentia, apenas fui depois dar aquele passo de actualize that in my head, tipo, ok, sou assim, porque é sempre um processo, porque depois eu via como é que as pessoas trans eram tratadas ao redor do mundo, é uma merda.
9:52
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Seja que está um gay na altura da nossa adolescência já era um 31, imagina Dark and Maltestrand.
10:00
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
e ainda assim algum pessoal ainda tendia, ok, mulher trans, homem trans, ok. We kind of get it. Agora, ir para uma questão completamente out of the norm e dizer, opá, eu não tenho uma sexualidade definida, só gosto de pessoas e não tenho um género definido, sou non-binary. Isso dá um toico ainda hoje em dia para algumas pessoas. Completamente. Eu acho...
10:29
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Ou seja, tu já sabes quem era. O meio não era muito permeável. Tu em algum momento sentiste mal-estar, confusão, necessidade de esconder, de silenciar, ou como é que isto foi vivido para ti? Eu tive sim, porque houve uma altura que, ainda por cima, o que não ajudava na altura é que toda a gente com quem eu estava, em questões de relacionamentos, gostavam de pessoas, por mais que eram pessoas queer,
11:00
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Queriam um homem, mas que fosse um homem. Com barba, caralho. Com cerveja na mão. E aquela voz de bagaço. Então, para mim, foi sempre aquela coisa do tipo, ok, if I am the way I am, I'm not gonna be desirable. Vai ser mais difícil. Então, houve uma altura que eu deixei a barba crescer. Not happy. I was not happy. I was not happy.
11:34
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Tinha 18 anos, que eu estava meio confuso por causa do environment, depois tem aquela questão também de começar a trabalhar, em que foi assim um loop-to-dovo que eu tinha a barba grande e depois eu deixei um relacionamento e fiquei tipo, não, que saca foda. Fiz a barba, cortei o cabelo, fiz tudo e mais alguma coisa e aí comecei-me a descobrir mais e tipo, não, não, sou assim, vou viver assim, opa, não vale a pena estar, porque todos os dias tinha sempre...
12:05
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Aqui atrás, a dizer tipo, you're not this. It's uncomfortable. Tipo, chamarem-te rapaz, chamarem-te rapaz. Ah, esqueci-me de dizer. Eu, ao crescer, como eu tinha cabelo comprido, e as we know, kids, tu não consegues muito bem definir o género de uma criança, eu era muitas vezes tratado ou por menino ou por menina.
12:31
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
O que para mim era, tipo, ok, era estranho. Ainda me lembro perfeitamente quando um dia eu fui ao médico, eu estava, tipo, na sala de espera, e uma senhora olhada ao meu lado, virou-se para a minha mãe, ai, você tem uma menina muito linda. E a minha mãe, tipo, ah, é um menino. E ela, ah, e eu, o que é que está a acontecer? Então, eu lembro perfeitamente que depois eu fui para o médico e fiquei com aquilo na cabeça, tipo, ok.
13:01
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
É engraçado porque tantas vezes tentamos esconder esta informação das crianças e muitas vezes para pessoas efetivamente trans esta informação já está lá. Para pessoas queer muitas vezes a informação está lá. E tu falas de um processo de descoberta que tu até já tinhas consciência que foi um tentar encaminhar da melhor forma que conseguias e depois quando podias libertar a informação e ser tu e fugir era o que fazias. Era tipo, eu sei quem sou, o problema são vocês.
13:32
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Como é que reagiu, tu fizeste dois caminhados diferentes, como uma pessoa queer mais na adolescência e depois já entrar na idade adulta, como uma pessoa atrás? Como é que se reagiu no contexto familiar, escolar, os amigos? Então, os amigos foram ok, na altura tinha um grupo bom de amigos e foram-os inclusive que até me ajudaram a escolher o nome, o que foi nice. Também ajuda porque todos os meus amigos eram tronos.
14:00
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Então, tipo, já todos passaram por isso na adolescência. Eles, tipo, todos deram o came out ao mesmo tempo dos dois. Eu é que pronto, foi um bocadinho mais precoce. A questão familiar, minha mãe não reagiu assim muito bem. Só recentemente é que ela agora está a alinhar um bocadinho os chakras em relação a isso. O resto da família não sabe. Se sabem, ignoram.
14:29
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Tipo, they still treat me by my dead name. Surpreendentemente, a pessoa que logo desde o início tratou-me pelo nome que eu queria foi a minha irmã. Que é uma pessoa que eu nem sou tão próximo, mas desde o início é logo, e os meus sobrinhos hoje em dia só me conhecem por o tio Crow. Só me conhecem assim. Um dia tratam-me pelo dead name e eles ficam tipo, who the fuck is that? Já em relação, por exemplo, na escola, eu tinha tido...
15:00
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Eu tinha a psicóloga da escola. Falei com a psicóloga. Ela disse-me... Isto foi, tipo, do segundo, do décimo primeiro para o décimo segundo, logo no final. Ela disse que ia ter uma reunião com os meus professores para avisar de mudança do nome. Eu tenho a falar sobre os pronomes. Para eu não ter também de estar a ter de dar dez vezes coming out.
15:25
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E ter 10 vezes a minha conversa e ter 10 reações completamente diferentes e conversas desconfortáveis. Quando veio a altura do ano, fiquei todo contente, não é? Pensava, pronto, já tiveram um tempo para processar, não tenho nada a ver com isso, que safoda, pronto. Só a minha diretora turma é que me tratava, procurou todo o resto, cagaram. A minha diretora turma para casa era muito fixa, era professora de inglês, ou seja, ela também está habitada à cultura de fora, ela tem um entendimento melhor.
15:56
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E eu, na altura, fui com a psicóloga e disse, olha, o resto dos professores não me tratam por Crowley. Ah, eu fui com eles, eu sei, mas não me tratam. Ah, porquê que não falas com eles? E eu, se tu que és psicóloga da escola, tiveste uma reunião, andei didn't change shit, what do you think I'm gonna do? Inclusive, a minha professora, a minha diretora de turma, teve discussões na minha turma, por minha causa.
16:26
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Porque eles estavam a tentar questionar, mas porquê? Mas porquê que estás a tratar o nome diferente? E a professora, porque quer. E acabou a história. Obrigado, professora. Obrigado. Tenho de ter essa conversa. Obrigado.
16:49
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Trabalho. Pronto, é difícil de ter uma conversa com qualquer empreendedor a dizer, this is the name I want. O único lugar onde eu consigo fazer isso é com a amnistia e a amnistia, pronto, é amnistia e são obrigados. Ainda me lembro quando eu mandei um e-mail ao meu coordenador e respondo com um e-mail ainda maior.
17:14
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Obrigado, Coroll! Respeito muito a tua coragem de seres quem és. E eu fiquei tipo, que puta! Foda-se, que puta de e-mail! Então pronto, e aí foi bom um pouco, foi a primeira vez em que eu até mesmo, pessoalmente porque é um trabalho onde tens de falar com pessoas estranhas na rua.
17:33
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E todas as vezes, eu não tenho que dizer uma dead name. O meu crachá que eu uso ao peito diz Crowley. Quando tu vais ao tablet, se olhas para o que tem o nome da pessoa que está no tablet diz Crowley. Tipo, a única parte que tem uma dead name é em questões legais de contrato. Tudo o resto, tudo o que mais precisa é diferente. Uma pessoa sabe quem é e sabe o que quer e de repente...
18:00
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
É uma tecnicalidade, não é? Nós ainda não usamos género no cartão cidadão, ainda tem sexo, não é? Enfim, é que tem outros problemas que nós sabemos. Mas as pessoas não binárias ficam neste vazio. Ou mudam o marcador de género para conseguirem mudar o nome ou então não muda nada. Eu não posso estar ok com o meu marcador. Mas assim não dá, porque também depende precisamente de quem é que tu apanhas no cartório.
18:27
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
A primeira vez que eu tentei mudar o meu nome foi tão traumático que hoje em dia tenho medo de ir outra vez. Tentei fazer esse procedimento. Porque eu fui ao cartório, todo contente. Chegas lá à loja de cidadão, não tenho propriamente uma cena a dizer o nome. Tipo, mudar de nome? Não, tu tens tipo cartão cidadão. Então pronto, fiquei na parte do cartão cidadão. À espera, eu sozinho. Chega a minha vez, eu vou ao senhor e eu digo. Parecia que eu tinha lhe apontado uma arma.
18:58
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Parecia que estava a saltar o banco. Ele foi logo, ah, não, não, não, não, não, isto não é comigo, não é comigo, não é comigo, e vai embora. Chega o supervisor dele, senta-se, um gajo assim nos seus 50's, cabelo branco, cheio de anéis e tatuagens, e eu pensei, pronto, isto pode ir de duas formas agora, ou é um gajo fixe, ou é um facho.
19:30
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Mas como é que é que eu estava lhe a dizer? Olha, é o seguinte, não é assim que funciona. Se tu és o João, passas a ser a Joana. Se tu és o Mário, passas a ser a Marta. É assim que funciona. Ou seja, pelo homem, tu nem tinhas como escolher o nome. Ele só te ia dar a parte feminina do nome. E eu na altura tinha um amigo meu... Força, força, desculpa. Que tem um amigo meu que é o trabalho...
20:01
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
como psicólogo no Porto, para uma associação LGBT, acho que também trabalhaste lá, e é em que ele disse-me que, opá, Carol, o que eu digo aos meus pacientes é, levem a lei, tens de estar com a lei imprimida, e se eles te recusarem, mostras a lei, porque senão, quantos e quantos casos se recusam? E depois tem outra, por exemplo, quando eu fui ao psiquiatra por causa da mudança de hormonas, eu estava-lhe a falar deste problema, e ele disse,
20:32
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Opa, é tão estranho, porque, opá, ele disse, depende muito de quem apanhas, porque há quem está-se a cagar para a lista de nomes. Eu, outro momento, ele disse que tinha uma paciente dele, que foi, o nome não estava no cartório, mas a pessoa era fixe, e me deu o nome como queria. Para que pense, é uma pessoa... O sistema não vai dar alerta vermelho só porque uma pessoa pôs o nome que está fora do registro português. Pronto.
21:05
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
É assim que funciona, mas depende sempre de quem apanhas. Claro, acho interessante e sabes que eu normalmente levo os meus clientes todos ao mesmo sítio.
21:16
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
que já é tranquilo, já se sabe, posso levar lá também, nunca foi, mas é completamente dependente da pessoa, e isso também é uma crítica, não é? E agora, até vou fazer o segue para a minha próxima, já me foste escrevendo, não é? Experiências na escola de não respeito de nome, experiências em serviços públicos de não respeito da lei, tens outras situações, e até principalmente...
21:41
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
No momento em que eras uma pessoa, a passar este período de questionamento, este processo de descoberto, em que viveste estas situações de discriminação, exclusão, violência, relacionados com a tua identidade ou com a tua orientação sexual também, se achaste relevante. Então, vou dar-te primeiro, quando eu fui à médica de família, quando eu fui pedir para as hormonas. Não é uma experiência má, mas eu vou contar isto porque a minha médica era nova.
22:10
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
É nova, tem pré-nossa idade, ela tem um entendimento melhor e ela literalmente pulou respostas, perguntas. Ela disse-me, pronto, Crow, tenho aqui um questionário, um formulário que eu tenho que preencher, que eu tenho que enviar. Tenho aqui perguntas que eu não te vou perguntar porque são invasivas. Eu vou só responder por ti. Está bem? E eu, está bem.
22:36
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Eu sei que há colegas meus que são estúpidos, eu não vou ser esta pessoa. Tu já deves estar há muito tempo a pensar nisto, certo? Sim, pronto, não preciso pôr. Quantos anos, mais ou menos? Ok, com certeza, o máximo de anos possíveis, desde que nascesse, o que for preciso. Ou seja, ela facilitou o processo, que ela claramente, a cara dela nem era fodida de estar a fazer aquilo, era fodida das perguntas que estava ali e que é obrigada a perguntar.
23:06
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
De outras coisas. Sexualidade, a coisa mais básica não é? Tirar sangue. Doar sangue. Foram lá médicos da Cruz Vermelha para ir doar sangue. Eu queria doar sangue. Chego lá, dois fatores muito importantes. Um tem tatuagens, o outro. Qual é a tua sexualidade? E eu fiquei a olhar para eles, tipo, porquê é que vocês querem saber a minha sexualidade? É obrigatório. E não me deixaram de doar sangue.
23:38
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Toda a gente da escola que foi doar sangue, que eu reparei, era pessoas héteras. Engraçado, então tu és a terceira pessoa que me conta uma história idêntica. Como é que tu lidaste com estas situações? Tu conseguiste procurar apoio, ou não, e porquê não? O que é que eu ia fazer? Ia fazer escandabés porque não me estão a tirar sangue na beia. E fiquei tipo, pronto, mais um pau isto, I guess.
24:16
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Mais um. De outras situações não de saúde, isto não é propriamente sexualidade gravata, mas I guess you can't put it away por causa da apresentação. Quando eu era menor de idade, 16 anos, tinha sido atacado por dois homens fachos, no qual disseram para voltar para a minha terra. E tu pensas, ok, já é uma merda. O problema foi depois da GNR chegar.
24:48
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
A GNR chegou, olhou para mim e automaticamente assumiu que quem tinha começado ou qualquer tipo de cascavejo tinha sido eu.
25:00
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Disseram, ah não, amido, vamos ser sincero, já tive a tua idade. Estás aí, de skate, na mão, ainda por cima, cabelo assim, não sei o que é. O belhote, eu fiz algum comentário e tu foste para a porrada. Eu tipo, não. O homem literalmente veio ter comigo e espancou-me à plena luz do dia, às 4 da tarde. Depois disso, mentiram. Disseram que eu, lembra, tinha 16 anos.
25:29
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
disseram que eu só podia fazer a queixa com a presença da minha mãe. Minha mãe estava a trabalhar, teve uns dias a trabalhar no Algarve, ela voltou, fomos logo diretos às oito da noite para o esquadro da GNR, no qual houve um senhor que simplesmente não quis trabalhar e deu a mentira de que o sistema não estava a funcionar. Porque no dia a seguir eu chego, de manhã para fazer a queixa, ele diz, ah, mas como é que era? Era um malhato assim, não sei quem, sei o que mais. Era, ah, não queria trabalhar, arris-se.
26:03
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E quando eu fui fazer a queixa, o senhor, que era ainda professor, acho que era o diretor do departamento, disse que minha mãe não precisava estar a oi. Eu já sou maior e vacinado, porque tenho 36 anos. Se eu respondo a oi, posso fazer uma queixa de crime. Então minha mãe ficou tipo, então porquê disseram ao meu filho que eu tinha de chegar? Ah, não sei. Passado um ano, liga-me o tribunal.
26:29
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
A dizer que eu tinha de ir ao tribunal, pensei, ah, ok, está a andar para a frente. Não, era um procurador do tribunal fodido, eu atualmente disse não sei quantos pobrões, porque tinha de recomeçar o meu processo, porque a GNR escreveu tudo mal. É assim que andamos. E esse seria, não é? Serviços de apoio, proteção.
27:06
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Não propriamente de serviços, mas de trabalho, assim, de discriminação. Eu acho que o lugar onde eu sofri mais discriminação, alguma vez, podia ter sentido na minha vida, foi quando trabalhava numa empresa de serviço de navios, onde eu estava a trabalhar cinco estrelas. Para tu teres noção da alta discriminação que sofri, um, logo nos primeiros dias,
27:37
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Quando estávamos a ter formações de como trabalhar no navio, sistemas de segurança, todas essas coisas que é importante saber trabalhar não na terra. E pode dar merda a qualquer momento e precisa saber. Outra parte foi, já que vamos estar todos a viver juntos, porque sim, estamos a viver todos juntos no navio enquanto trabalhamos, é importante saber respeitar uns aos outros. Onde tivemos uma senhora que foi dar uma formação, para falar sobre isso. Onde estava a falar de homofobia, transfobia.
28:06
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
machismo, racismo e xenofobia, onde diretores de navios e os seus coleguinhas a fazerem piadas, a interromper, a gozar. Croo, sendo o Croo, ainda por cima, eu estava num único navio onde tinha uma mulher diretora e onde todas as minhas experiências eram mulheres, menos o chefe de cozinha. Eu ia fazer um comentário à senhora, a pedir-lhe desculpa por estar a ver este tipo de coisas e ela decidiu dizer, olha, o Croo quer dizer uma coisa.
28:40
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
I was like, hum, might as well. Então tivemos descascados. Isto não é profissional, isto não é uma boa impressão que vocês estão a dar, vocês têm aqui mulheres, ninguém está a se rir, vocês têm aqui imigrantes que não percebem português e não estão a perceber o que vocês estão aqui a dizer, isto não é assim que funciona, vocês estão a dizer que imigrantes fazem não sei quantas pausas para rezar e quantas pausas vocês não fazem para fumar, ou para falar, ou para ir beber, não é assim que funciona. A partir daí, tudo o que eu fazia era um problema.
29:10
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Um, veio uma diretor que nem era meu, mas é um diretor do outro navio, veio até comigo dizer, tens de tirar os brincos. Eu disse-lhe, eu não tenho de tirar brincos porque acabei de ter a formação de higiene e dizem que este tipo de brincos que eu tenho é ok, mas não vai estar brincos no meu navio. Do tipo, homem de brincos, não pode estar no navio. Passados uns tempos, o diretor do pessoal que anda, que era do bar, que era da minha secção, que era o diretor de todos, o pessoal que trabalha nos bares de navios, chama-o.
29:47
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Diz, ó Coroa, anda comigo ali lá fora, vamos fumar um cigarro, isto é importante. E eu penso, o que é que merda que eu fiz? Senta-se comigo num canto e diz, isto não é uma maneira fácil de dizer.
30:00
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Eu não sei como dizer-te porque isto está-me a ser bem desconfortável a tafar comigo, mas estão fartos-me a foder a cabeça porque o teu cabelo é assim, bestes assado, tens unhas pintadas, usas make-up, e opá.
30:20
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E ele disse, eu estou a fazer isto não porque me importa, mas eu estou a dizer isto para tu tirares essas coisas que me estares a facilitar, para tu não te és doar com este tipo de comentários, eles não têm, por enquanto não fazem a ti diretamente, fazem a mim, mas eu não quero que tu te sintas mal. E eu fiquei a olhar para ele, tipo, mas então, eu estou a ser...
30:42
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
atacado e, basicamente, pela reação dele, basicamente a recomenda porque eu tenho caracóis e porque pareço feminino. E eu é que tenho de mudar. E para teres no seu encontro, todos os meus colegas, todos os outros colegas, porque ainda não tínhamos passageiros nos navios e estávamos a preparar o navio, poderiam trabalhar a classe de pijamas, eu tinha de trabalhar de fato. Tinha de estar arranjadinho, não podia estar com unhas pintadas, tinha de estar as unhas cortadas, tinha de estar com o cabelo bem lambido.
31:16
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Tocai que se vê em Caracóis, que problema, que 31. E foi assim a minha estadia toda, que depois fui despedido porque pronto, eventualmente arranjaram alguma coisa para me despedir. E eu sei perfeitamente que não foi por justa causa porque eles não me despediram intelectualmente. Eles deram-me um papel à frente a dizer que era um autodespedimento. A minha diretora até chorou, porque se apercebia da injustiça que estava a acontecer ali e que ela pedia imensa desculpa.
31:47
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E, opá, a mínima coisa que eu faça, fui logo despedido e, pronto, mandaram-me embora. Então, pronto, estive ali sempre para levar com comentários e não sei o que é. Um lugar extremamente eleitista, opá, é o que é. Claro.
32:06
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Claro. Eu até, se tu me permitires, até ia voltar um bocadinho mais. Porque nessa lógica, tu também me estavas a falar da escola e dos professores não respeitarem. Tu passaste algum... Ou seja, e este tipo de episódios também na escola? Porque se não respeitam nomes, pronomes, se temos uma pessoa com uma apresentação de género diferente, se calhar sou eu que estou a assumir, mas assumo que também não seja muito fácil. A maior parte das professoras mulheres.
32:36
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
olhavam para mim de maneira estranha. Nunca faziam nenhum comentário, mas eram sempre de maneira estranha. Os professores homens dá para ver perfeitamente desconforto. Mais uma vez, a minha escola não era privada, também não era pública, era semi-privada. Não tinhas de pagar para estar lá, mas eles não recebiam só do Estado. Então eles têm um entendimento perfeito de que também não podiam passar limites.
33:03
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Era uma escola profissional. Mas tinha um professor que não fazia comentários, para mim, mas fazia comentários em geral para mulheres. E a nível de colegas, como é que isto funcionava? Era mais ou menos pacífico ou nem por isso? Então, a maior parte dos colegas, opá, era uma parte que, por exemplo, estava um pequeno curso profissional de restauração, a maior parte deles tinha dinheiro.
33:36
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Uma parte deles, os pais já tinham algum estabelecimento, então o trabalho era só ter, ok, faz o décimo segundo e depois, quando os velhotes ficarem velhos, tomas conta do negócio. Então, tipo, não entendiam. Tinha as pessoas que, opá, claramente chegam. O resto, opá, eram muito inocentes, então, tipo, nunca percebiam muito bem as coisas e também não faziam comentários. Mas era isso.
34:09
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Estratégias é que tu lidavas, ou seja, estratégias de coping, procura de apoio, sem ser quase oficial, não é? Mas como é que tu lidaste com este período? Opa, para o ainda que tinha, para o ainda que tinha, para o ainda que tinha, na escola que menos tinha a psicóloga, sempre tinha psicóloga, sempre fui, porque como eu era considerado a Special Needs Kid.
34:31
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Mesmo que não dessem-me ajuda necessariamente de escoar, tinham de me dar sempre apoio psicológico para ver como é que eu estava e não sei quem, então eu tinha esse apoio. Não que faziam nada, tenho-te a dizer que as psicólogas da escola eram um bocadinho inúteis, porque já ouvi casos de miúdos terem ataques de pânico e só diziam tipo, acalma-te, tem calma, tem calma, e o pessoal tipo, I didn't show a professional, should you know how to cope with it?
35:00
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Tipo, or something. Tipo, do resto, simplesmente ficava a pensar, é passageiro. É passageiro. Eu ainda por cima, eu também nunca ficava tanto agarrado, mas porque eu, como a economia é que nunca foi boa, eu andava sempre a mudar de casa em casa, por causa de rendas em rendas, ou seja, também mudava sempre de escola. Então, tipo, no primeiro ano andei numa escola, no segundo ano andei na outra, no quarto ano andei a outra,
35:34
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
percebes, foava sempre de sítio em sítio. Então nunca era aquela coisa de solidificar, porque é tipo, ok, passageiro. Principalmente nessa altura que era o décimo, décimo primeiro, décimo segundo, era tipo, ok, três anos. It's fine. Tenho os fones, acabas com a aula, vou fumar, entro na aula, fico a olhar para a aula, faço trabalhos e pronto, não preciso me chatear.
36:04
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Era um modo de sobrevivência. Ser o mais eficiente possível. Eu sei quem sou, aceito. Como é que tu olhas agora para o teu período de questionamento, para este processo de descoberta, tendo em conta que és uma pessoa, aos 23 anos, já tão self-assured. Como é que tu olhas para ele? Que significado atribuís atualmente a este período? Ah pá, foi um... Porque não é um período curto, é um período longo.
36:35
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Foi um ponto importante na minha vida, obviamente, ter aquele entendimento e ter questionamento. E também eu gosto de conseguir chegar às conclusões mais totalmente sozinho, por mais que tinha, pronto, rede de apoio de amigos que eram queer e trans, nunca precisei necessariamente estar a questioná-los do tipo, ah, como é que é isso? Eu apenas observava o mundo e, pá, tentia entender, tentava me encaixar, também a internet ajuda muito.
37:05
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
A internet me ajuda muito a tentar perceber, depois estudar a história, mesmo, até mesmo, é coisa engraçada porque, mesmo dentro da religião nombanda, tens um orixá que eu não estou agora a lembrar o teu nome, mas que é um orixá não binário, que literalmente vive entre o mundo masculino e feminino, e literalmente o que representa esse orixá, which is kind of funny, é um arco-íris.
37:38
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
O pessoal chama o arixá dos gays. O pessoal diz que é o arixá dos gays porque a maior parte dos gays da religião trabalham com ele ou são filhos dele, por isso é o arixá dos gays. E acho que também o que me ajudou, por exemplo, também nessa questão de cultura é que tu tinhas as barreiras de género, por mais que, é uma coisa estupida, mas tinhas algumas passagens de género, tipo caminhos de género, gender roles dentro da religião, eram muito facilmente quebradas.
38:08
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
tinha os homens que muitas vezes tinham de usar o vestimento das femininas, ou as mulheres estavam fazendo trabalhos que eram mais masculinos, estavam a usar uma camisa e calças, ou seja, isso também ajudou muito a eu poder olhar para o mundo e ficar tipo ok, não, é ok, não é preciso ter estas regras tão rígidas, e ajudou-me também a amaldrecer e saber, tipo, perceber quem eu sou, ajuda-me também a ser quem eu sou agora.
38:39
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Há alguma investigação, literatura, também fala do período de questionamento e processo de descoberta como ele sendo um período de maior sofrimento, sofrimento mais intenso, tu reviveste nesta ideia ou nem por isso? Em que sentido? De ser um período em que, ai, eu não sei bem quem sou e não consigo obter informação, foi muito difícil, ou para ti não foi vivido tanto desta forma? Como é que tu interpretas, lá está, este período para ti a nível de sentimentos, emoções?
39:08
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Ah pá, fui sempre confuso, porque mais uma vez, era uma altura em que era muito tipo, ou és isto ou és aquilo. Ainda estava a tentar ratificar a questão de, ok, gay é ok, uma mulher trans é ok. Ainda hoje em dia não se vem muito à baila. Agora hoje em dia vem-se mais à baila, por exemplo, porque é que é sexualidade queer, ou bissexual, ou pansexual, tipo, isso já é um bocadinho no-brainer.
39:35
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
para uma parte das pessoas, mas mesmo hoje em dia, por exemplo, em conversas trans, não se fala muito da questão não binária. Tipo, tens as pessoas não binárias, obviamente que existem, as pessoas sabem, mas quando se fala dos problemas, ou tem mesmo pessoas que são efetivamente mortas por serem trans, fala-se sempre, ok...
40:00
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Uma pessoa frame, uma pessoa mask, tem sempre essas duas categorias e sempre foi um bocadinho confuso tentar saber onde é que me encaixaria.
40:13
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Acho que temos o insight suficiente. Agora, o que é que eu te ia pedir e perguntar? Já me foste falando, não é? De apoio a nível psicológico, contato com serviços médicos, forças de segurança. O que é que eu gostava de avançar? Que fôssemos fazendo também uma espécie de retrospectiva de percepção e avaliação destes serviços. Ou seja...
40:37
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Normalmente, nós já fomos falando, o que é que motivava os contactos, se foste encaminhado, se foi voluntário. Antes de avançar para essa parte, é de só perguntar se existiam momentos em que precisavas de apoio, e que até sabias que teoricamente esse apoio podia existir, mas que optaste por não recorrer. Sim, porque, por exemplo, precisava de apoio muitas vezes jurídico, em questões de como é que funciona a UAE para pessoas não binárias.
41:08
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Um, eu não sabia propriamente como poderia chegar a esse tipo de apoio, porque, por exemplo, uma das... A Teresa tem uma tia dela que trabalha no cartório e ela disse que uma das coisas que vamos ter de fazer por causa do meu nome, em princípio, teria de ser fazer um requerimento, fazer um requerimento ao tribunal e depois o tribunal dar uma resposta, tipo, ah, ok, ela quer usar esse nome ou não, ela quer usar esse nome. Sabes?
41:35
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Ou até mesmo com uma questão de que se queres mudar o teu nome sem ICF, sem mudar o teu género, ou no caso o sexo, no cartão cidadão, tens de pagar 200 pavos. Ou até mesmo tem tipo um loophole. Porque tecnicamente eu estou dentro de um loophole que é essa lei de estar dentro do nome do cartório só funciona para quem são pessoas 100% portuguesas. Porque quem tem dupla senalidade, essa lei não devia entrar.
42:05
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Não é uma questão, se um imigrante tem um filho cá, mas que não há o nome da terra dele, não é obrigado a estar dentro da lei. É também esse entendimento, que não tem a dupla nacionalidade, de que maneira é que poderia fazer esse jogo. Mas, na minha vez, um, não há dinheiro, dois, não sei o how the fuck that works. Voltamos a isso, não é? Então, nem é tanto uma confiança ou desconfiança, é que muitas vezes há a mesma falta de informação. E dentro dos próprios serviços, completamente dependendo da pessoa que se encontra.
42:41
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Houve outros cenários, sei lá, em que sofrestes algum tipo de episódio de discriminação ou violência e que decidiste só não tomar medidas legais ou procurar apoio em alguma associação ou já não? Deixa-me ver. Já é uma questão de que se foi ou não. É apenas, tipo, opá, obviamente que existe aquele fora de instituições que acontece com pessoas random, mas isso, não é? Vais fazer o quê? De instituições em si.
43:16
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Teve isso de trabalho, teve aquilo das forças. Acho que não, acho que esses foram os maiores fatores de questões institucionais, obviamente. Obviamente que fora psicólogos e muitos psiquiatras que muitas vezes não querem muito bem saber dessas questões. Ou até mesmo têm medo. Isso é uma coisa que eu acho muito interessante, que é têm medo porque não estão informados.
43:50
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
e se calhar vou aproveitar essa segue e começar pelos psicólogos, porque psiquiatra na parte médica se calhar pergunta a seguir, mas como é que é no geral, e já me foste falando na escola, não sei se tens mais experiência com psicólogos, como é que é no geral a tua experiência com serviços de psicologia e de saúde mental? Está muito fraco, está muito fraco e não é necessariamente culpa de psicólogos, às vezes é, mas não o maioritariamente.
44:21
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Lembro perfeitamente quando foi a questão, por exemplo, para mim do autismo e tudo mais, em que tinha também problemas de questionamento de género, tinha uma médica que naquela zona, ela era a médica de 200 pessoas. Ou seja, para além de não ter tempo, ela claramente estava exaustada e só queria despachar toda a gente. Tudo que não fosse urgente, tipo, não te queres matar, pronto, não precisas de mim. Básicamente.
44:52
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Então não é que necessariamente era culpa dela, mas é culpa em geral da instituição como um todo.
45:00
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
que psicólogos, por exemplo, quando eu estava tentando perguntar sobre questões legislativas com a psicóloga da escola, ela não me soube poder informar, porque eu vi o pânico dela, porque ela não está dentro desses parâmetros, dentro de pessoas não binárias, dentro de pessoas trans, não percebe. Ela percebe, tipo, se alguém enviar para dizer, ah, não sei se sou gay ou não, ok, ela aí consegue, tipo, ajudar. Agora, tudo que saia disso, não consegue.
45:32
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Tu alguma vez sentiste por parte da psicologia ainda uma patologização da tua identidade? Ou não chegámos tão longe? De certa forma, quando eu fui ao meu psiquiatra, só por causa do que é obrigado a aproveitar-te ao psiquiatra para poder receitar a medicação e tudo mais, o empurfeitamento de ele estar a insistir muito, mas para mim foi um bocadinho estranho, tipo, are you sure this is what you...
46:06
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Identifiers. Mas tipo, questionou-me 10 vezes ao longo da sessão. Mas não precisas de ajuda? Mas já sabes o que é que tu és. Ok, és uma opção domineira. É isso. Certo? E eu... E há. Sim. Mas de certeza? Sempre... Eu não sei se era também ele tentava ver se conseguia abrir um bocadinho mais caso eu estivesse com dúvidas e tivesse com medo de falar. Não sei, mas ele estava mesmo tipo...
46:36
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Existente. Existente. Existente. Existente. Existente. Existente. Existente. Existente. Existente. Existente. Existente. Existente.
47:08
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Na internet, outras pessoas trans disseram o que acontecia. Ok, então tu sabes que isto acontece, certo? Mas dê-lo muito básico. Dê-lo quase por garantido que tu já tinhas a informação. Ou seja, não havia muita literacia sobre temas queer, não houve uma abordagem particularmente afirmativa e não houve aqui aquilo que nós chamámos a compreensão do impacto de trauma de minorias. E se tu não soubesses? E se tu não tivesse os recursos para aprender?
47:40
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Claro. Se eu não tivesse, ele ia me perguntar o que é que eu estava aí a fazer. Como é que podes querer uma coisa se não sabes o que é que é? Kind of. Outra coisa também é, por exemplo, há mais cá fora, acho que também não é provavelmente da instituição, mas também de environment, por exemplo, lá fora, nos Estados Unidos, Inglaterra, não sei o que é, já há recursos e medicamentos, mais ou menos específicos, que estão para pessoas não binárias.
48:10
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Porque é uma opção do binário. Ok, primeiro perguntas. O que é que tu queres? Quais são os resultados que tu queres? Ok, então nós vamos te dar isto e isto e isto. A mim só me dando, tipo, what I give to any trans woman. Tipo, toma. Obviamente, por exemplo, já há uma diferença. Por exemplo, a minha médica mesmo, ela já é mais simpática. Ela pergunta-me. Olha, e se eu também estar a dose? Ficarias feliz?
48:36
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Claro, mas devia haver aqui, porque o médico de família não deixa de ser um profissional que não é especialista em endocrinologia. Devia haver aqui um alinhamento do endocrinólogo de te conseguir explicar. Não, não, esta parte que me perguntasse quem pode me aumentar esta medicação é o endocrinólogo. Ele pergunta-me, e a doutora Sara? A minha doutora Sara é impecável. Ela, inclusive, eu só reparo que ela, mais ou menos, só tem pessoas trans.
49:07
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E eu reparei também que ela, quando tem mulheres, por exemplo, grávidas, ela só aceita ou perde mais claramente pessoas imigrantes. Na última vez que eu fui ter com a doutora Sara, ficámos para aí 20 minutos, quase como se fosse tomar café a falar. Mas isto é médica de família? Não, não, médica de endro... Endropneologia? Ai, que fixe. Ok, ok. Então, vou só voltar à parte da saúde mental para perguntar uma coisa. O que é que tu...
49:37
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
achas ou que barreiras é que tu encontraste? Que motivos te levaram a acessar o acompanhamento ou não procurar? Se sabia necessidades que não foram reconhecidas, ou seja, dificuldades e necessidades identificadas a nível da saúde mental? A nível de saúde mental, por exemplo, eu ainda não consegui fully the diagnosis for autism.
50:01
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Totalmente, porque sempre que eu tento é quase como se eu estivesse a pedir, sei lá, meutanásia. Parece que eu estou a pedir para me darem meutanásia. Uma coisa que eu sempre reparei, que eu nunca desisti propriamente de um psicólogo, mas os psicólogos não desistiam de mim, porque diziam, Crow, you're too self-realized, tu és... ué... como é que se diz?
50:32
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Tu pensas demasiado com a cabeça. Tu processas muito bem as tuas emoções e consegues identificar o porquê do teu trauma e o porquê que tens estes problemas, tipo, não precisas de mim. Como se o trabalho do psicólogo fosse só virar-te para ti e dizer, ah, ok, tu tens este problema por causa disto. Mas o facto de eu chegar e dizer, ei, olha, eu tenho esta resposta do trauma por causa destes traumas, vão logo, ah, então por que estás aqui?
51:02
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
docentes que isso tem a ver com questões só de género ou por todas as intersecções que me falaste, não é? Uma pessoa queer, que tem nome binária, que tem dupla nacionalidade, que tem uma expressão de género distinta, ou seja, isto curta tudo. É tudo. Isto engloba tudo, como aconteceu tudo que eu te disse, não engloba sempre uma coisa, que é sempre frustrante, porque é tipo, chegas, por exemplo, isto é uma coisa engraçada,
51:31
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
que tem-se falado muito dentro da comunidade do autismo, é tu sendo uma pessoa societally attractive e dizeres, ah, quero um diagnóstico de autismo, para eles é do tipo, why? É do tipo, o que é? É suposto eu chegar with my headphones, my fucking hoodie, and being with all my tics and stems, a chill, e não saber ter uma conversa, é suposto...
52:04
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E se diz, oh, é mais suposto... Ai, ai, ai, realmente, tens autismo. Toma aí a tua... A tua certificada, I guess.
52:15
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E é mesmo isso, todos os problemas que alguma vez tive, como eu dizia, ah, eu tinha este problema por causa disto, era tipo, ok, então não precisas de mim. Mesmo em questão escolar, porque é obrigatório terem-me dado acompanhamento, porque as mulheres já cresciam, tinha de ter um social worker comigo, sentado ao meu lado a verificar se eu estava a escrever tudo, se eu estava a acompanhar, se eu estava a perceber, se precisava de alguma ajuda. Nunca me davam a mim, porque eu sempre estive em turmas onde havia sempre alguém pior.
52:50
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Eu tinha dois miúdos surdos e tinha um miúdo com autismo. Só por causa do miúdo com autismo, por exemplo, meter-se em cima da cadeira, em cima da mesa, começar a fazer piadas do nada ou começar-se a rir, a atenção deles tinha de ser automaticamente focada para ele e muitas vezes eu e também os miúdos que eram surdos não tinham acompanhamento necessário.
53:18
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
A primeira vez na minha vida que se sentou à minha beira, não durou dois minutos. Ah, eu vou ter de ir para a noite, está bem? Ok, tchau. E pronto. E foda o resto. E posto tudo isto, já que este contato com a psicologia também foi muito em contexto escolar. E agora a pessoa que tu és hoje.
53:45
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Tu sentes que é fácil para ti voltar a recorrer à psicologia, recomendar este serviço para outras pessoas LGBTI? Sentes que confias? Não a 100%. Maior também das vezes eu peço quando tenho colegas meus eu digo para irem ou pessoas que eu sei que são psicólogos e que podem dar um acompanhamento ou digam vão as associações de ajuda que são queer. Ou seja, faço a recomenda.
54:17
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Como tenho o meu amigo André, que trabalha no Porto, e digo, olha, vão a eles, ou eles possam recomendar a outra pessoa, que não dá. E principalmente para o público, onde as suas esperas são enormes. Eu via psicólogos quase seis em seis meses, ou mais, para ter uma conversa de dois minutos, e muitas vezes nem me deixam falar o que eu queria, e ficava sempre assim, sempre nesse louco.
54:47
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Isto leva-me a outra pergunta também, não sei quem és, que é, estávamos-me a falar desta instabilidade, economicamente as coisas não eram fáceis, a tecnologia não é particularmente acessível? Não, não é.
55:00
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Não é acessível para quase ninguém, porque se tu pensares que hoje em dia a economia que vivemos, há parte das pessoas que têm problemas de vida pela questão económica. Temos um serviço de saúde onde as pessoas, também os médicos não têm recursos para todos, não há médicos para todos, não há psicólogos para todos. Como tu disse, tinhas uma psicóloga que tinha 200 pacientes para a freguesia quase toda. A freguesia toda basicamente tinha para ela, coitada.
55:28
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Como é que é suposto te dar um acompanhamento especializado para pessoas, ou por cima até mesmo miúdos, como eu sempre fui, que são neurodivergentes, que têm ansiedade, que têm depressão, que estão a passar por dificuldades de orientação sexual e tudo mais, e que ainda não precisam de ajuda, por exemplo, do apoio. O que é que tu fazes? Chegou um ponto na escola em que, como ainda por cima, eu reprovei mais que duas vezes na minha vida.
55:57
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
tu tinha a minha escola, que eu andei numa altura, era obrigatório tu teres quase extracurricular, em que em vez de, supostamente, viram-te por um psicólogo, com os miúdos, a fazer atividades, perguntar como é que estão as notas, dar-lhe raspaneiros, se for preciso, não, tinha um professor, dava-lhe uma formaçãozinha e a tirava-lhes para ali. É que depois é um problema, porque depois tu tinhas ali miúdos em que eram situações de pobres, de bairro.
56:27
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
e que muitas vezes estavam a falar em contexto de vida normal e depois quando se apercebiam ficavam tipo, oh pera, isto não é uma psicóloga, ela não tem aquela questão de confidencialidade entre paciente e psicólogo. Literalmente estava fora um dia a falar de problemas sobre como é que era a minha casa, eu ainda era menor de idade, e ela disse, ah ok, se isso continuar vou ter de ligar a CPCJ, e eu, ah? Claro, claro. Ah, porque se o professor é obrigatório, e eu?
57:06
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Acho que a escola, e desculpa-me se estiver um bocado off-pace, mas também influenciou muito a perceição que tens sobre as instituições, porque no fundo o apoio estava lá, mas não estava. Quando eu precisava era só se não houvesse ninguém que precisasse mais. Formação sobre diversidade, políticas inclusivas, não havia, não se falava.
57:29
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Então, acaba por ser, não é, um dia até para o resto, porque a parte da escola, depois tiveste aquela interação com a GNR, a psicóloga da CNS que não respondia, claro que tu és super self-reliable, se não fosse, não estava a haver outra resposta coesa e congruente. Sim, basicamente.
57:48
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Eu até ia aproveitar, porque também estamos, pronto, a reunir alguma informação sobre confiança, procura. Qual é a tua percepção a nível dos serviços médicos, saúde física, endocrinologista, psicólogo? Tu confias? Consegues recomendar com alguma facilidade isto a outra pessoa trans, a outra pessoa queer? Como é que as tuas experiências também mudaram a forma como procuravas os serviços de saúde?
58:16
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
em questão, pelo menos, da minha doutora Sara de Andronologia, recomendo, I wish-te, que todos os meus amigos trans que eu conheço, tivessem sentido uma doutora Sara. Ela é toda para a frente ex, dá-me na cabeça. Por exemplo, ela, oh Crow, eu quero te dar um medicamento para ingoires, para hormonas, mas tu fumas, não posso.
58:42
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
E eu, ah, ela não vai ter de ter patches, porque eu não posso ficar com problema de tu teres depois de um cancro no coelho, porque estás a tomar esse medicamento e fumas. Não dá, ou paras de fumar ou tenho de estar com patches. E eu, filha da puta. É uma boa médica. E ela dar na cabeça não é tão sério. É uma coisa tipo, vamos lá, fuma menos carrinhos, ainda conseguimos ter aqui uma maneira de abertura. Agora, os outros serviços, mal parte.
59:16
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Não. Tipo, eu sempre estive no Hospital São João, ou era porque era psicologia, ou era porque era por causa dos meus problemas de tanto dos ossos, tinha de sempre fazer raio-x. Eu acho que eu sou a pessoa que fez mais raio-x na minha vida. Eu nunca vi ninguém que fez tantos raio-x como eu. A outra vez que eu fui fazer raio-x, a senhora virou-se para mim e disse assim, eu nunca fiz raio-x a alguém e que não tivesse de repetir. E eu, minha senhora, eu já sei.
59:40
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Já sei que vocês querem que eu me vier do lado, vocês já querem que eu fique de costas, vocês já querem que eu fique de frente, eu já sei como é que isto funciona. E, pá, mesmo de serviços, por exemplo, tenho até serviços que, por exemplo, esqueci-me qual é, o serviço por causa da parte óssea, esqueci-me o nome.
1:00:01
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Ai, só me estou a lembrar da osteoporose que está errado, mas eu percebi a força. Diz aquele geral de São João onde pronto, esquece, que pessoas integráveis. Eu vou lá e digo, olhem, tenho dores, estou na merda, não consigo andar, não consigo correr, eu abaixo-me, parece que me deram uma facada. Ah, chambera, aqui a tua ficha.
1:00:30
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Ai, mas ó Cro, não podes fazer cirurgia? Eu não disse para fazer cirurgia. Eu já sei que não posso fazer cirurgia desde os 11 anos. Não quero. Eu não quero ficar para o plégico. Obrigado. Ah, mas isso não é comigo? Então é com quem? Não sei. E é isto. Dizem, ora faz natação. Faz desporto. E vir-me para ele, se eu nem consigo estar de pé, como é que eu vou fazer desporto? Se eu não consigo mexer-me, como é que eu vou fazer desporto?
1:01:02
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Ah, não, tenho de fazer... Olha, pronto, faço a fisioterapia. Pior, que já és o lugar onde tinha vagas de fisioterapia. E pior, porque tu não podes fazer fisioterapia se trabalhares. Fisioterapia é de manhã ou à tarde, às horas que eles venham a apetecer, e que se a foda-se têm esse trabalho ou não. Olha, faltas. E ainda por cima não é tipo uma vez por mês, é tipo duas ou três vezes por semana. Que raio de trabalho é que tu vai querer estar a fazer fisioterapia naquelas condições?
1:01:34
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Os serviços não são acertíveis, não há vagas, não há espaço, tens de ir sempre a um privado com um P1 e têm de aceitar um P1 e não há qualquer tipo de acompanhamento. Como pessoa não binária, tendo em conta todo este vazio, tu sentes que alguma vez evitaste cuidados médicos por receio de discriminação ou de violência? Sim. Para mim, principalmente, ir a qualquer espaço pessoalmente público, não só de médicos, mas qualquer espaço público.
1:02:08
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
onde eu tenho de dar a minha identificação, é sempre um problema. Porque dizem sempre o meu DNA em voz alta, tenho sempre de dar os meus documentos, e por mais que está na minha ficha médica o nome, a ficha médica não passa para todo lado. Eu fui ontem comprar a minha medicação, a medicação trans não existe em nenhuma farmácia, as farmácias têm sempre de encomendar.
1:02:42
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Não há nenhuma farmácia que diga, ah, eu tenho. Eu fui em Hawaii e dizem, ah, mas não tenho. Eu sei que não, vocês têm de encomendar. Eu já sei como é que isto funciona. Encomendem, não há problema. E é sempre pronto. E dizem sempre em posalto ou não. Sabes o que eu acho? Andar para trás é um comentário solto. Mas eu lembro-me quando estava no Centro de Vista, que há uns anos, que tinha chegado à ideia de ler as senhas era o mais eficiente. Recentemente, não só...
1:03:17
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Não se lê as senhas como se chamam nomes, em centros de saúde, etc, etc. Porque no meu centro de saúde tinha-se passado a dizer o nome da senha. E agora dizem o teu nome completo. Já. E pior, eu não sei se a Dena São João ou o Santo Antónico agora tem a consulta transgénero. Não é crack o teu nome com a senha. Estás a usar. Bom, vou te ser mais sincero, na hidronologia...
1:03:50
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
aquela parte do São João é vazia. Tu só vais abrir pessoas trans e grávidas ou pessoas com filhos. Tu não vieses não an in between. Ou tu tens crianças ou tens pessoas trans. Porque não consegues. Já estou à espera de uma pessoa de endocrinologia para ir a um ano e meio. Ok, vou voltar à entrevista. Mas porque não há? Ortopedia é o serviço. Também estou à espera da ortopedia para ir a um ano e meio. Era a ortopedia. Era a ortopedia. É agora. Olha, já passou uma hora, mas tens mais um bocadinho. Isto está sempre bom. Ainda tinha algumas perguntas. Sim.
1:04:20
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Bem, a Teresa não sei o que ela está a fazer. Ela está aqui em casa doente, tadinha. Não sei o que ela ia aparecer. Tadinha, que bosta. Não, ia-te perguntar, estávamos a falar da doutora Sara, o que é que ela faz que para ti é bom e poderia ser replicado? O que é que faz ela bom? Primeiramente, uma coisa que os médicos deviam fazer sempre, quando primeiramente se marca.
1:04:47
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
porque obviamente isto não é possível se tu marcares diretamente, mas se tu marcas pelo São João, isto não é só um processo de uma médica, Assembleia dos Médicos, a médica que me eu devia já pôr na lista o nome que queres ser tratado, porque quando eu cheguei à sala da doutora...
1:05:00
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
A doutora Sara já sabia o nome que queria ser tratado. A única coisa que ela perguntou é como é que se pronuncia. Como era a pronúncia correta. Aí, tudo impecável. Coisa que a doutora Sara faz. A doutora Sara, ela fala de uma maneira...
1:05:20
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Normal, sem estresse. Isto não é um tráfico de droga. Isto não é tipo um 31. A pergunta é tipo, olha, mas já sabe os crescimentos, como é que funciona? Sei. Ok, mas eu vou-lhe repetir na mesma. Vou-lhe rever tudo o que acontece. Vai haver um crescimento X, vai fazer mudança Y, não sei o que. Se tiver alguma coisa, tome o meu e-mail, contacte-me.
1:05:51
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Se a medicação acabar, contacte-me. E eu ponho-lhe mais na sua fichinha para você ir e pôr. Olá, baby. Vai sair na gravação. As melhores, meu amor. Ela é uma professora profissional e agora ainda por cima, à medida que já passamos mais de imenso tempo juntas, ela já fala com uma neutralidade.
1:06:23
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Pergunta-me como é que eu estou, se tenho estado bem, se preciso de alguma coisa. Ela pergunta-me mesmo, depois de questões médicas em geral, eu estava lhe a falar das minhas dores dos ossos e tudo mais, e ela disse que na próxima consulta, para lhe relembrar, que eu vou ter daqui a 4 semanas, para que ela vá me marcar numa consulta de análise da saúde dos ossos. Ou seja, é uma médica que se preocupa, que quer saber. Fala de dar na cabeça como deve ser, mas não dá na cabeça como algum machão, que são bem agressos.
1:06:52
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Tipo, ó senhora, não paga! Tipo, olha, não faças isto, recomendo por causa disto e disto e daqui, eu explico as coisas. E pergunta sempre, tens dúvidas? Tem havido alguma coisa inesperada? Sei que é. Por exemplo, eu deixei de ter a psiquiatra porque eu tinha deixado de... não pude ir à consulta. E depois nunca mais me marcou.
1:07:21
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Eu inclusive pus lá na justificação porquê que eu não pude. Que a minha irmã tinha tido uma criança. Que a minha irmã teve uma criança e não pude ir à consulta. Cagaram-me. E ela, aí foi. Ok, ponho aqui na justificação e peço-lhe. E pronto, vou ter consulta com ela. É o envolvimento, a naturalização, a empatia. Ela não faz nem uma fórmula mágica, na verdade. Não.
1:07:45
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
É só coisas básicas, perguntou no início, tipo, como é que me identifico, questões de pronomes, e eu já tinha reparado perfeitamente que é uma médica que está habituada a pessoas trans por um motivo muito simples. Tem sempre uma miúda que vai com a mãe e é mesmo sempre no mesmo gabinete que ela vai. Eu e ela é a marcação no mesmo dia. Então, tipo, já é uma pessoa que já está habituada, ela ainda reclama. Além do que eu estar de férias, ela quer me dar a férias.
1:08:16
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Ah, olha, tem esta medicação que você tomou, olha, eu só posso tomar, senão eu não venho trabalhando, e assim. E não sei o que é. E depois diz, ai, vou estar aqui até as duas da manhã. E eu olho, faço a greve, é lá o que me deram. Há uma naturalidade. É simpatia. Não está aí para despachar, às vezes o filho tem mais tempo que é necessário, porque lá pá, estamos na conversa. Claro, claro.
1:08:43
S… Speaker 2 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Ora bem, da parte médica acho que temos um resumo perfeito. O que é que eu ia perguntar agora e depois para entrarmos até no final da entrevista? Tu tiveste um contato com a GNR, PSP, Forças de Segurança, que não foi automaticamente ou necessariamente ligada à tua identidade. Podia ter sido a percepção de identidade ou não correspondente. Mas...
1:09:08
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Como é que isto influencia agora se tu voltasse a precisar de pedir ajuda às forças de segurança? Qual é a tua perceção das forças de segurança? Neste momento, na minha perceção, eu só iria chamar-se por uma questão de legalidade, por uma questão de obrigatória, de obrigatação legal. Se acontece algum tipo de incidente ou uma pessoa precisa, é obrigatório chamar, não há nada que possas fazer, está na lei, é crime se não chamares.
1:09:39
S… Speaker 1 (Entrevista 2 - LN2701_Áudio)
Mas agora, se for uma coisa que eu consigo resolver, é estar nos meus últimos pensamentos. Eu chamo o Manel, a Joaquina, quem tiver de chamar, mas... Porque chamar, principalmente quando tens, principalmente, quando eu fui ao tribunal e tens um procurador fodido...

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Тодорхойлолт
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